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A Universidade e os anos 1950

 

Andréa Cristina de Barros Queiroz*

 

A década de 1950 está atrelada ao ideal de modernização, desenvolvimentismo e industrialização do país e neste contexto que se insere o crescimento e a reestruturação da Universidade do Brasil (UB). As diversas transformações da sociedade, da cultura e da economia encontravam respaldo nas produções científicas das universidades brasileiras.

Foi exatamente nessa atmosfera que houve a institucionalização e a diversificação das pesquisas produzidas na Universidade do Brasil, não se restringindo apenas em torno de professores catedráticos como nas décadas anteriores. Em 1951, a criação de duas instituições foi importante para a efetiva institucionalização da pesquisa nas universidades: o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Elas contribuíram para o desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas em várias unidades da UB; para o incentivo à criação de núcleos de pesquisa como também o fomento de bolsas de pesquisas para professores e pesquisadores; e por fim, sobretudo com a CAPES assegurou “a existência de pessoal especializado em quantidade e qualidade suficientes para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e privados que visassem o desenvolvimento econômico e social do país” (FÁVERO, 2010, p.75).

Por falar em desenvolvimento e modernização, foi na década de 1950 que a Universidade do Brasil inaugurou o primeiro prédio de sua Cidade Universitária, após várias discussões entre o governo e os membros da Comissão de Professores, Arquitetos e Engenheiros que definiram onde ela seria erguida. Lembramos que desde a década de 1930, durante a ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas e o Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema junto com a mencionada Comissão debatiam sobre a criação da Cidade Universitária, mas somente, em 1945, que decidiram o local onde a mesma seria erguida. Assim, “após mais de uma década de discussões, chegou-se à conclusão de que, antes de se construir os prédios da Cidade Universitária, deveria ela mesma ser construída através de uma gigantesca obra de engenharia” (BARBOSA, 2013, p.16). Dessa maneira, foi aterrado o arquipélago composto de nove ilhas (Catalão, Baiacu, Cabras, Fundão, Pindaí do França, Pindaí do Ferreira, Bom Jesus, Sapucaia e Pinheiros) nas proximidades de Manguinhos, da Avenida Brasil e da ponte de acesso à Ilha do Governador para formar a Ilha do Fundão. Em 1951, começaram as obras de instalação do futuro prédio do Instituto de Puericultura com a equipe de engenheiros e arquitetos do Escritório Técnico da Universidade do Brasil (ETUB). Portanto, em 01 de outubro de 1953, ao inaugurar simbolicamente a Cidade Universitária, através de seu Instituto de Puericultura e Pediatria, “Vargas pretendia tornar concreto o sonho de materializar as condições necessárias à modernização da Universidade do Brasil” (OLIVEIRA, 2013, p.17).

Ao lado do então Reitor Pedro Calmon e do médico e professor Joaquim Martagão Gesteira (convidado pelo presidente para assumir a direção do Instituto), em seu discurso de inauguração destacou Getúlio Vargas: “nesse recanto tranquilo da Guanabara destinado a abrigar os labores da inteligência e do saber, vemos hoje concretizar-se, na inauguração do primeiro edifício da futura Cidade Universitária, um anseio da cultura nacional a que procurei dar realidade. [...] meu governo tomou as providências iniciais para levantar aqui o mais importante centro educacional do país. [...] Obra de grande vulto e longo alcance, muitos descreram de suas possibilidades. [...[ Era preciso promover condições materiais para que mestres e estudantes viessem encontrar, no convívio de todos os dias, a verdadeira atmosfera da vida universitária”. (Jornal Diário de Notícias, de 02/10/1953).

O projeto arquitetônico e urbanístico do Instituto de Puericultura e Pediatria tem a assinatura modernista do arquiteto-chefe do ETUB Jorge Machado Moreira e do paisagista Roberto Burle Marx. Com este projeto, a dupla foi premiada na II Bienal de Arquitetura do Estado de São Paulo, em 1953. Para Jorge Machado Moreira (Apud. JARDIM, 2013, p.29), “fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais”.

Para Lúcia Costa (2013, p.39), “o Instituto de Puericultura da UFRJ é parte importante do legado erudito de Burle Marx. Este conjunto arquitetônico e paisagístico incorpora valores culturais, estéticos e botânicos que destacaram internacionalmente profissionais brasileiros. A UFRJ é portanto guardiã de um patrimônio que pertence à cultura brasileira, e desta forma não devemos poupar esforços para o enriquecimento e irradiação deste patrimônio”.

É importante ressaltar que durante alguns anos o Instituto de Puericultura foi a única unidade da UB a funcionar na Cidade Universitária. Seja como for, podemos dizer que a Cidade Universitária da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro constitui-se como um patrimônio memorialístico e cultural do legado da arquitetura universitária moderna brasileira, além do prédio do IPPMG, Jorge Machado Moreira e Burle Marx receberam também o prêmio arquitetônico e paisagístico pelo projeto do prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Escola de Belas Artes da UB (que também abriga a Reitoria), na Bienal de Arquitetura de São Paulo de 1957.

*Historiadora da UFRJ; Doutora em História Social (UFRJ); e Diretora da Divisão de Memória Institucional/SIBI/UFRJ.

 

Referências

COSTA, Lúcia M. Os jardins de Roberto Burle Marx para o Instituto de Puericultura da UFRJ. In: AYRES, Leon. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira: 60 Anos. Rio de Janeiro: IPPMG/UFRJ, 2013, p.38-40.

FÁVERO, Maria de Lourdes. Universidade do Brasil: das origens à construção. 2ª ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

FERREIRA, Marieta de Moraes. A História como ofício: a construção de um campo disciplinar. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2013.

JARDIM, Paulo. O Arquiteto e a Arquitetura do IPPMG. In: AYRES, Leon. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira: 60 Anos. Rio de Janeiro: IPPMG/UFRJ, 2013, p.28-36.

OLIVEIRA, Antônio José B. O Instituto de Puericultura e a Cidade Universitária. In: AYRES, Leon. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira: 60 Anos. Rio de Janeiro: IPPMG/UFRJ, 2013, p.14-17.

Fontes

Foto 1 – Construção da Cidade Universitária, início das obras, 1951. (Núcleo de Documentação e Pesquisa/FAU/UFRJ)

Foto 2 – Arquipélago onde será construída a Cidade Universitária, 1945. (Núcleo de Documentação e Pesquisa/FAU/UFRJ)

Foto 3 – Discurso do Presidente Getúlio Vargas na inauguração do IPPMG, 1953. (Biblioteca Pedro Calmon/SIBI/UFRJ)

Foto 4 – Sequência de fotos do IPPMG, 1953. (Núcleo de Documentação e Pesquisa/FAU/UFRJ)

 

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