"A universidade não é um órgão de poder temporal ou uma peça da máquina administrativa do Estado. A universidade é a consciência e o cérebro da Nação, a mais elevada expressão sistemática da sua vida espiritual, pois que ela reflete o pensamento do Brasil – do passado que ela herdou e do presente que procura formar, para a conquista do futuro. A sua missão é grande como um sacerdócio: as suas responsabilidades medem-se pela amplitude que pode ter sua ação (...) A universidade não é somente uma casa de ensino, onde devem ser transmitidos os conhecimentos para a instrução dos que a procuram. A universidade é o grande templo da educação do povo, cuja missão é conduzir o seu desenvolvimento, interrogando a verdadeira trajetória do progresso para que o futuro não se reduza a uma simples reprodução do passado. A universidade não é somente a depositária da ciência, da cultura e da técnica, para a sua transmissão a gerações sucessivas, como um patrimônio sagrado. Cumpre-lhe, também, aplicar todo esse valioso depósito, para que ele frutifique nos resultados dos conhecimentos e soluções de todos os grandes problemas da Nação. Tanto na paz como na guerra cabe à universidade, por uma ininterrupta atividade de pesquisa, técnica e científica, por uma longa ação cultural e doutrinária, contribuir pela forma mais alta e eficiente para o progresso e grandeza do Brasil. Para o desempenho dessa magna tarefa, o âmbito da universidade não tem fronteiras, nem os seus trabalhos se restringem aos seus elementos verdadeiramente nucleares – professores, alunos e funcionários. Cooperam com a universidade todos os brasileiros, cada um dentro da esfera de suas possibilidades: os filósofos e os pensadores, os técnicos e os cientistas, os industriais e os comerciantes, todos, enfim, que exercitem uma atividade qualquer, quer teórica quer prática, são colaboradores que a universidade traz às bases do seu saber, a indicação das múltiplas necessidades da vida nacional e a contribuição do seu auxílio material, para a consecução dos seus grandes objetivos. Missão de tão amplas proporções só pode ser realizada por um sistema autonomamente organizado, com uma estrutura ajustável aos imperativos ditados pelas circunstâncias (...) Não pode ela se submeter às peias próprias aos órgãos burocráticos, pelos que tolhem as iniciativas e impedem as articulações de largas proporções. A universidade autônoma tem a sua vitalidade assegurada, principalmente, pelo concurso de suas valiosas correntes cujas ações se completam: seus alunos e antigos alunos. Asseguram estes últimos uma conservação de tradições indispensáveis à vida universitária ao mesmo tempo que estabelecem as ligações diretas naturais entre a universidade e a nossa Nação. Os alunos da universidade não são simplesmente discípulos que aprendem e se educam para carreiras futuras; colaboram eles para a vida universitária, refletindo na intimidade do sistema das propagações as aspirações de sua geração que devem ser cuidadosamente estudadas e aproveitadas para a própria garantia do progresso da instituição. A missão dos mestres é uma ação apostolar que mais tenta desenvolver homens com a capacidade de impulsionar a vida da Nação em seus diferentes setores que transmitir, simplesmente, conhecimentos. Deve o mestre ter sempre em mira que a sua verdadeira tarefa não é reproduzir-se em seus discípulos, seguido em cópia fiel de sua própria imagem. Se a educação em tal consistisse, o progresso não existiria, viveria a humanidade em um eterno presente em que o mundo não evoluiria, porque o homem se estabilizava, sem capacidade para evoluir. Deve o professor ter, também, sempre em vista que a sua atividade de educação e de ensino se completa pela sua ação de pesquisador pela qual o mestre se aprimora, o discípulo melhor se educa adquirindo espírito de iniciativa, tanto na ciência como na técnica, contribuindo quer um, quer outro para a impulsão do progresso. O Reitor é a voz da universidade e o coordenador de todas as suas atividades e iniciativas. Cabe-lhe escutar as opiniões para distinguir as tendências segundo as quais se define o movimento espiritual da nacionalidade, que na universidade se reflete. Compre-lhe examinar e apreciar as idéias várias, não como quem busca determinar um resultado de componentes diversos, mas delimitar zonas de interferência em que os antagonistas não tenham divergências. A sua grande tarefa não é, pois, [apoiar] a maioria, mas conciliar pontos de vista para estabelecer unanimidade. O papel que deixo esboçado importa, sem dúvida, em obra urgente e deveras difícil; para desempenhá-lo tornam-se indispensáveis boa vontade e sinceridade. Tais disposições não existem somente da minha parte. Estou certo de que consigo comungar, na hora difícil que vive o Brasil, não somente a universidade, como todos os brasileiros. Estou certo de que ninguém me recusará a colaboração indispensável ao desempenho da árdua missão que ora cai sobre meus ombros. E foi essa certeza que me deu a coragem para aceitar a investidura que recebo neste momento."

 

Inácio Manuel Azevedo do Amaral foi reitor da Universidade do Brasil após a queda do Estado Novo, de 1945 a 1948.

 

Pesquisado e transcrito por

Antonio José Barbosa de Oliveira
Professor do CBG/UFRJ e colaborador da Divisão de Memória
antoniojosearrobafacc.ufrj.br

 

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